quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Será Que um Animal não Humano Pode ser Uma Pessoa?


Parece estranho chamar "pessoa" a um animal. Esta estranheza pode não passar de um sintoma do nosso hábito de manter a nossa espécie claramente separada das restantes. Em todo o caso, podemos evitar a estranheza linguística reformulando a questão de acordo com a nossa definição de "pessoa". O que estamos de facto a indagar é se alguns animais não humanos são seres racionais e autoconscientes, conscientes de si mesmos como entidades distintas com passado e futuro.
Serão os animais autoconscientes? Há hoje provas sólidas de que alguns o são. Talvez a prova mais espetacular provenha dos símios antropóides que conseguem comunicar connosco por meio da linguagem humana. O antigo sonho de ensinar a nossa linguagem a outra espécie tornou-se realidade quando dois cientistas americanos, Allen e Beatrice Gardner, puseram a hipótese de o fracasso das tentativas anteriores para ensinar chimpanzés a falar se tiver devido ao facto de os chimpanzés não possuírem o equipamento vocal necessário para reproduzir os sons da linguagem humana, e não a inteligência necessária para usar a linguagem. Daí que o casal Gardner decidisse tratar um jovem chimpanzé como se fosse um bebé humano sem cordas vocais. Comunicaram com ele e entre si na sua presença usando a linguagem gestual americana, uma linguagem usada correntemente pelos surdos americanos.
A técnica registou um êxito estrondoso. O chimpanzé, ao qual deram o nome de Washoe, aprendeu a compreender cerca de 350 sinais diferentes e a usar correctamente cerca de 150. Alinhava sinais para formar frases simples. Quanto à autoconsciência, Washoe não hesitou quando lhe mostraram a sua imagem num espelho e lhe perguntaram "Quem é?", respondendo "Eu, Washoe". Mais tarde Washoe mudou-se para Ellensburg, no estado de Washington, onde viveu com outros chimpanzés sob os cuidados de Roger e Deborah Fouts. Aí adoptou um chimpanzé bebé e em breve começou não só a fazer-lhe sinais, como a ensinar-lhe deliberadamente esses sinais, moldando as mãos para formar o sinal de "comida" no contexto correto.
Os gorilas parecem ser tão bons como os chimpanzés a aprender a linguagem gestual. Há quase vinte anos, Francine Patterson começou a usar sinais e também a falar inglês com Koko, uma gorila da planície. Koko possui agora um vocabulário prático de mais de 500 sinais e usou cerca de 1000 sinais numa ou mais ocasiões. Compreende um número ainda maior de palavras faladas em inglês. O seu companheiro, Michael, que entrou em contacto com a linguagem gestual numa idade mais tardia, usou cerca de 400 sinais. Em frente de um espelho, Koko faz caretas ou examina os seus dentes. Quando lhe perguntaram "Quem é uma gorila esperta?", Koko respondeu: "Eu" Quando alguém disse de Koko, na sua presença, "Ela é pateta!", Koko (talvez não compreendendo o termo) disse por sinais: "Não, gorila."
Lyn Miles ensinou a linguagem gestual a um orangotango chamado Chantek. Quando lhe mostraram uma fotografia de um gorila a apontar para o nariz, Chantek foi capaz de imitá-lo, apontando também para o seu. Isto implica que possui uma imagem do seu próprio corpo e é capaz de transferir essa imagem do plano bidimensional da imagem visual para realizar a necessária acção corporal.
Os símios antropóides também usam sinais para se referirem a acontecimentos do passado ou do futuro, mostrando assim um sentido do tempo. Koko, por exemplo, quando lhe perguntaram, seis dias após o acontecimento, o que tinha acontecido no seu aniversário, assinalou: "dormir, comer." Mais impressionante ainda é a prova de noção do tempo demonstrada pelas festas regulares realizadas pelo casal Fouts para os seus chimpanzés em Ellensburg. Todos os anos, após o dia da acção de graças, Roger e Deborah Fouts montavam uma árvore de Natal, enfeitada com ornamentos comestíveis. Os chimpanzés usavam a combinação de sinais "árvore doce" para se referirem à árvore de Natal. Em 1989, quando a neve começou a cair logo a seguir ao dia da acção de graças, mas a árvore ainda não fora montada, uma chimpanzé perguntou: "árvore doce?" Os Fouts interpretaram este episódio como prova de que Tatu não apenas se lembrava da árvore, como também sabia que chegara a época do ano em que devia ser montada. Mais tarde, Tatu recordava-se também de que o aniversário de um dos chimpanzés, Dhar, tinha lugar pouco depois do de Deborah Fouts. Os chimpanzés recebiam gelados no seu dia de anos e, quando terminou a festa de aniversário de Deborah, Tatu perguntou: "Dhar, gelado?"
Suponhamos que, com base nestes elementos, aceitamos que os símios que usam sinais são autoconscientes. Serão excepcionais, a este respeito, entre todos os animais não humanos precisamente porque usam uma linguagem? Ou será que a linguagem permite meramente que estes animais nos demonstrem uma característica que tanto eles como os outros animais possuem?
Alguns filósofos têm defendido que o pensamento requer a linguagem: não se pode pensar sem se formular os pensamentos em palavras. O filósofo Stuart Hampshire, de Oxford, por exemplo, escreveu:

“Neste caso, a diferença entre um ser humano e um animal reside na possibilidade de o ser humano exprimir e pôr em palavras a sua intenção de fazer isto ou aquilo, para seu benefício ou benefício dos outros. A diferença não é meramente a de que um animal não tem, de facto, qualquer meio de comunicar ou de registar para si mesmo as suas intenções, pelo que ninguém pode alguma vez saber qual era a sua intenção. É uma diferença mais forte, que se exprime corretamente como o absurdo de atribuir intenções a um animal que não tem meios de reflectir sobre o seu próprio comportamento futuro nem de anunciá-lo a si nem aos outros [...] Seria absurdo atribuir a um animal uma memória que distinguisse a ordem de acontecimentos no passado e sê-lo-ia também atribuir-lhe a expectativa de uma ordem de acontecimentos no futuro. O animal não possui os conceitos de ordem, nem quaisquer outros conceitos.”

É óbvio que Hampshire estava enganado na sua distinção tão drástica entre seres humanos e animais; como acabamos de ver, os símios antropóides que comunicam por sinais mostraram claramente que possuem, de facto, "uma expectativa de uma ordem de acontecimentos no futuro". Mas Hampshire escreveu aquelas linhas antes de os símios terem aprendido a usar a linguagem gestual, de modo que este lapso é perdoável. O mesmo não se pode dizer da defesa muito posterior da mesma perspectiva por outro filósofo inglês, Michael Leahy, num livro intitulado Against Liberation. Como Hampshire, Leahy defende que os animais desprovidos de linguagem não podem ter intenções nem agir "com base em razões".
Suponhamos que reformulávamos tais argumentos de modo que se referissem aos animais que não aprenderam a usar uma linguagem, e não a todos os animais. Teriam nesse caso razão? Se assim fosse, nenhum ser sem uma linguagem se poderia considerar uma pessoa. Isto aplica-se, presumivelmente, tanto aos bebés humanos como aos animais sem a linguagem gestual. Pode argumentar-se que muitas espécies de animais usam de facto uma linguagem, que simplesmente é diferente da nossa. Não há dúvida de que a maioria dos animais sociais possui certos meios de comunicarem uns com outros, quer sejam as canções melodiosas das baleias-de-dorso-cinzento, os zumbidos e assobios dos golfinhos, os uivos e latidos dos cães, os trinados das aves ou até a dança realizada pelas abelhas quando regressam à colmeia, que transmite às outras a distância e a direcção da fonte de alimentos de onde aquelas regressaram. Mas é duvidoso que essas expressões sejam equivalentes a uma linguagem no sentido requerido, porque ao falarmos em linguagem estamos a referir-nos a um sistema simbólico; e, como nos afastaríamos demasiado do nosso tema se explorasse essa questão partirá do princípio de que não o são e terei em consideração o que podemos saber a partir do comportamento não linguístico dos animais.
Será sólida a linha de argumentação que nega um comportamento intencional a animais quando se limita a animais sem linguagem? Creio que não. Os argumentos de Hampshire e de Leahy são típicos de muitos filósofos que já escreveram coisas semelhantes no facto de não passarem de tentativas de fazer filosofia de sofá sobre um tema que exige investigação no mundo real. Não há nada de inteiramente inconcebível em relação a um ser que possua a capacidade de pensamento conceptual sem possuir uma linguagem e há exemplos de comportamento animal que são muito difíceis, se não impossíveis, de explicar, a não ser que se pressuponha que os animais pensam conceptualmente. Por exemplo, numa dada experiência, investigadores alemães apresentaram a uma chimpanzé chamada Júlia duas séries de cinco caixas fechadas e transparentes. No final de uma série estava uma caixa contendo uma banana; a caixa no final da outra série estava vazia. Só se podia abrir a caixa que continha a banana com uma chave de um formato distinto, o que era evidente olhando para a caixa. Esta chave podia ver-se no interior de outra caixa fechada; e, para abrir essa caixa, Júlia necessitava de outra chave diferente, que tinha de ser retirada de uma terceira caixa, que só podia abrir-se com a sua própria chave, que, por sua vez, estava dentro de uma quarta caixa fechada. Por fim, em frente de Júlia estavam duas caixas iniciais, abertas, contendo cada uma delas uma chave diferente. Júlia conseguiu escolher a chave inicial correta, com a qual abriu a caixa seguinte da série, que acabou por levá-la à caixa contendo a banana. Para fazê-lo teve de ser capaz de raciocinar retrospectivamente, desde o seu desejo de abrir a caixa com a banana até ao facto de precisar de ter a chave para abri-la, daqui para o facto de precisar da chave que abriria essa outra caixa e assim sucessivamente. Como não ensinaram a *Júlia* nenhum tipo de linguagem, o seu comportamento prova que seres sem linguagem podem pensar de forma bastante complexa.
Não é apenas em experiências de laboratório que o comportamento de animais aponta para a conclusão de que possuem tanto memória do passado como expectativas acerca do futuro e que são autoconscientes, formando intenções e agindo a partir delas. Frans de Waal e os seus colegas observaram durante anos chimpanzés vivendo em condições seminaturais em 8000 metros quadrados do Jardim Zoológico de Amsterdão. Observaram muitas vezes actividades de cooperação que exigem planeamento. Por exemplo, os chimpanzés gostam de trepar nas árvores e de partir ramos para comerem as folhas. Para evitar a rápida destruição do pequeno bosque, os tratadores do jardim zoológico colocaram uma cerca eléctrica em volta do tronco das árvores. Os chimpanzés deram a volta a esta dificuldade partindo grandes ramos de árvores mortas (que não tinham cercas em seu redor) e arrastando-os até à base das árvores vivas. Um chimpanzé segurava então o ramo morto enquanto outro trepava por ele, passando por cima da cerca e chegando à árvore. O chimpanzé que chegava à árvore por este processo dividia as folhas que obtinha com aquele que segurava o galho.
/.../
Jane Goodall descreveu um incidente que mostra planificação com respeito ao futuro por parte de Figan, um jovem chimpanzé selvagem da região de Gombe, na Tanzânia. Para atrair os animais para mais perto do seu lugar de observação, Goodall escondeu algumas bananas numa árvore:
Certo dia, algum tempo depois de o grupo ter comido, Figan vislumbrou uma banana que tinha passado despercebida -- mas Golias [um macho adulto com uma posição superior a Figan na hierarquia do grupo] estava a descansar mesmo por baixo da banana. Após um movimento rápido do olhar, do fruto para Golias, Figan afastou-se e sentou-se no outro lado do acampamento, de modo que deixou de poder ver o fruto. Um quarto de hora depois, quando Golias se levantou e se afastou, Figan, sem a menor hesitação, foi lá e apanhou a banana. Não há dúvida de que tinha avaliado toda a situação: se tivesse tentado apanhar o fruto antes, Golias quase de certeza lhe arrebataria a banana. Se tivesse ficado perto da banana, provavelmente teria olhado para ela de vez em quando. Os chimpanzés são muito lentos a ver e a interpretar os movimentos dos olhos dos seus companheiros, e, portanto Golias teria possivelmente avistado o fruto. De modo que Figan não só conteve a satisfação imediata do seu desejo, como se afastou de modo a não "abrir o jogo" olhando para a banana.
A descrição deste episódio apresentada por Goodall atribui a Figan um conjunto complexo de intenções, incluindo a intenção de evitar "abrir o jogo" e a de apanhar a banana após o afastamento de Golias. Também atribui a Figan uma "expectativa de uma ordem de acontecimentos no futuro", nomeadamente a expectativa de Golias se afastar, de a banana permanecer ali e de ele, Figan, ir lá apanhá-la. E, no entanto, não parece haver nada de "absurdo" nestas atribuições, apesar do fato de Figan não poder transmitir as suas intenções ou expectativas por palavras. Se um animal pode conceber um plano meticuloso para apanhar uma banana, não no momento imediato, mas num momento posterior do tempo, e tomar precauções contra a sua própria propensão para revelar o objectivo do plano, esse animal deve ter consciência de si próprio como uma entidade distinta existindo ao longo do tempo.
http://liberdadeazulsp.blogspot.pt/2013/07/sera-que-um-animal-nao-humano-pode-ser.html
por Raffaell Garone
Consultado no dia 01/09/2013


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