domingo, 5 de janeiro de 2014

A vida em um dia


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Este documentário permite-nos ver o lado humano da globalização: para além dos processos negativos, relacionados com a exploração das pessoas e a destruição das culturas, há as vidas humanas tocadas pela possibilidade de comunicarem com o resto do mundo, através dos meios tecnológicos atuais que estão a tornar o planeta mais pequeno.
Se se pode falar dum etnocentrismo que se impõe aos povos de todo o mundo, a hegemonia da civilização ocidental é por demais evidente, também se nota um refluxo desta vaga assassina que traz às praias da Europa e da América do Norte as vozes e os produtos culturais dos outros povos.
Se os meios de comunicação impõem o seu poder por todo o lado, os cidadãos anónimos têm acesso à difusão de conteúdos à escala global, através da Internet e usando os mais diversos instrumentos, como sejam os telemóveis, tablets, computadores, câmaras de vídeo, etc.. Mesmo que os meios de comunicação tentem silenciar acontecimentos problemáticos, a avalancha informativa que percorre a Internet é sempre imparável e com efeitos emancipatórios evidentes: os cidadãos podem denunciar injustiças, escândalos, atentados aos direitos do homem, atos ilegítimos de força de regimes totalitários...
A Primavera Árabe é um exemplo da força da cidadania empoderada pelos novos meios de comunicação do mundo global. Na Tunísia, na Líbia, no Egito, na Síria, a força dos cidadãos anónimos foi capaz de derrubar tiranos e mudar regimes totalitários. Mesmo que o resultado destes processos de mudança ainda seja incerto e persistam conflitos sangrentos, como no caso da Síria, é inegável que nada será como dantes.
É por isso que os esforços sucessivos das grandes potências mundiais para controlarem a Internet parecem ir no sentido de acabar com o seu poder subversivo. É que através da Internet os pequenos deste mundo podem lutar contra os Golias com a esperança de poderem ganhar cada vez mais espaço para serem seres humanos felizes e autónomos.
Este documentário, realizado com base em milhares de vídeos produzidos por pessoas anónimas de todo o mundo, permite-nos compreender as sementes de mudança positiva que a globalização está a espalhar pelo planeta. Em primeiro lugar, há um fio condutor que une todas as sequências de vídeo: em todas elas há alguém que segura um aparelho com uma câmara capaz de se ligar ao Youtube: todas aquelas pessoas, ricas ou pobres, doentes ou saudáveis, idosas ou jovens, sabem que estão a contribuir para um evento global e participam nas filmagens como um facto natural e quotidiano. Desde os confins do oriente até ao interior de África, há vidas contáveis ao mundo, vidas que se mostram, que se partilham e que mostram o que é ser humano, nos apetos mais banais da vida ou nos momentos mais dramáticos em que novos seres nascem enquanto outros morrem. Tudo isso faz parte da vida, tudo isso pode unir os seres humanos que, ao ver todas estas cenas, se percebem iguais apesar (e por causa) das diferenças.
Talvez a globalização económica que está a destruir as culturas locais acabe, vítima do seu próprio ímpeto, por dar lugar a uma outra globalização: a englobação das pessoas e das culturas num movimento que valorize as diferenças e contribua para o genuíno encontro de cada um dos homens com a sua dignidade, no respeito pelos valores fundamentais plasmados na Declaração Universal dos Direitos Humanos. 

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