quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Os Jogos Olímpicos na Grécia Antiga

Em 776 a.C., após deixar para trás seis adversários, o grego Corobeu venceu a única prova daquela que ficaria conhecida como a primeira edição dos Jogos Olímpicos. Contrariamente ao que se imagina, não foi uma corrida de longa distância: o cidadão da cidade de Elis percorreu apenas os 192 metros de extensão do estádio de Olímpia, na península do Peloponeso. A ideia de que a maratona foi o primeiro desporto olímpico, portanto, não passa de um mito.
Segundo esse mito, em 490 a.C., durante o período de guerras entre gregos e persas, um corredor chamado Fidípides teria atravessado quase 100 quilómetros entre Atenas e Esparta para buscar ajuda. Outra versão conta que um homem chamado Eucles percorreu a distância entre Atenas e a cidade de Maratona para participar da batalha. Com a vitória dos gregos, ele retornou a Atenas para dar a notícia, um esforço de 40 quilômetros entre ida e volta que lhe teria custado a vida.
Nigel Spivey, professor de Artes Clássicas e Arqueologia na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, e autor de The Ancient Olympics (“As Olimpíadas antigas”, inédito em português), afirma que o equívoco pode ser esclarecido ao analisa-se a estrutura social da Grécia antiga. “Isso a que chamamos de corrida de longa distância nunca tinha sido considerado desporto, tendo em vista que o trabalho de levar mensagens entre as cidades era função de servos e escravos.”
Na democracia grega, apenas os homens livres eram considerados cidadãos. Entre os seus direitos estavam as decisões políticas e a participação no exército. Essa natureza bélica, enraizada na própria mitologia, também se relaciona com a atenção dada ao corpo. A prática constante de atividades físicas era a responsável por mantê-los preparados para as guerras – e acabou por dar origem às Olimpíadas. As cidades-estado só alcançavam esse status se oferecessem às suas populações um local para a prática de desportos – o estádio. A partir do século VIII a.C., a Grécia estabeleceu um calendário de competições para motivar os seus “atletas”.
A primazia de Olímpia sobre as demais cidades gregas na organização dos jogos está fundamentada na mitologia. Filho de Zeus, o herói Hércules teria inaugurado os Jogos Olímpicos como forma de comemorar o sucesso de um de seus 12 trabalhos: a limpeza dos estábulos de Audias, rei de Elis. Concretamente, sabe-se que essa lenda foi representada em Olímpia pelo escultor Fídias, que, em 440 a.C., foi o responsável pela construção do mais importante templo em homenagem a Zeus, que se transformou numa das Sete Maravilhas do mundo antigo. A estátua fez com que a cidade se tornasse o principal ponto de encontro dos festivais religiosos. E a proximidade do estádio fez com que Olímpia se destacasse como palco dos desportos.
Por mais de 40 anos, a participação foi restrita a atletas da região. Mas, entre 732 a.C. e 696 a.C., a lista de vitoriosos passou a incluir cidadãos de Atenas e Esparta. E, a partir do século VI a.C., os jogos passaram a receber inscrições de qualquer homem que falasse grego, fosse ele da Península Itálica, do Egipto ou da Ásia. “Participar de torneios como aqueles não era, de facto, apenas competir”, afirma Nigel Spivey. “Os atletas dirigiam-se para as Olimpíadas antigas com o interesse de ganhar e ser reconhecidos como os melhores.”
Ao longo dos anos, diversas cidades-estado passaram a realizar as suas próprias disputas, que também tinham uma forte dimensão religiosa. Como forma de homenagear a deusa Atena os chamados Jogos Panatenáicos foram instituídos em Atenas em 566 a.C., mas acabaram ofuscados por outros torneios. Esse novo circuito de competições, conhecido como Jogos Sagrados, era sediado em Olímpia e Delfos – a cada quatro anos – e em Corinto e Nemea – a cada dois anos.

BIGAS E SANGUE
Embora a primeira Olimpíada tenha acolhido apenas uma competição, novas categorias foram incluídas ao longo dos mais de mil anos do evento como forma de disputa política e militar. As corridas de biga, inicialmente com quatro cavalos, inauguraram um novo espaço de competições, o hipódromo, em 680 a.C., data da 25a edição dos jogos. Diversos personagens históricos protagonizaram embates nessa modalidade. O político Alcibíades, amigo e entusiasta de Sócrates, participou da corrida de 416 a.C. com nada menos que sete bigas. Segundo o historiador Tucídides, conquistou o primeiro, o segundo e o quarto lugares. Em 67 d.C., já sob o domínio romano, os gregos assistiram ao imperador Nero ser coroado vencedor mesmo sem ter cruzado a linha de chegada com a sua biga puxada por dez cavalos. Combates corporais também fizeram parte do calendário olímpico da Antiguidade. Uma das modalidades, conhecida hoje como luta greco-romana, já fazia parte do treino físico dos jovens da Grécia desde o século X a.C. Os primeiros vestígios da inclusão dessa luta numa Olimpíada datam de 400 anos depois: foram encontrados em fragmentos de uma placa de bronze. Para vencer a luta, não havia contagem de tempo. As categorias eram divididas por idade. Era preciso atirar o oponente ao chão pelo menos três vezes — sem partir os dedos do adversário.
O boxe também foi disputado. Um busto representando um lutador de 330 a.C. dá conta da violência da modalidade – há inúmeras cicatrizes na imagem de bronze. Não havia luvas, rounds ou regras claras para aliviar o sofrimento dos competidores. O orador João Crisóstomo registou em dois discursos que um tal Melancomas, morador de Caria (localizada na costa da Ásia Menor), teria sido o maior pugilista do primeiro século da era cristã.
A luta mais cruel da competição, porém, foi introduzida no calendário cerca de 100 anos depois da primeira Olimpíada. Para que se tenha ideia, os combatentes do chamado pancrácio eram punidos pelos juízes só em caso de mordeduras ou quando um deles arrancasse um olho ao adversário. O vencedor acabava venerado pela plateia mesmo quando provocava a morte do oponente.
Conjunto de cinco categorias, o pentatlo era disputado em provas de corrida, salto, luta, arremesso de disco e arremesso de dardo. Respectivamente, corridas e lutas abriam e encerravam o conjunto de provas – com algumas regras próprias, ambas as categorias também eram disputadas fora do pentatlo. Na corrida, a distância mais curta envolvia um trajeto de cerca de 200 metros, equivalente ao comprimento dos estádios.
Na mais longa, os atletas disputavam a liderança em 24 voltas pelo perímetro do local ou 5 mil metros.
Os jogos da Antiguidade eram violentos. Muitas vezes, serviram para simular batalhas militares. A morte de atletas chegou a ser registada. A despeito das condições climáticas e mesmo de higiene, sabe-se que os atletas competiam nus. Historiadores antigos registram que essa tradição teria começado em 720 a.C., quando um indivíduo chamado Orsipos, de Megara, venceu uma prova de corrida ao notar que a sua performance seria melhor se ele tirasse as suas roupas pelo trajeto. A própria palavra “ginástica” tem o termo “nudismo” em seu radical grego gymnos – o que explicaria a proibição de mulheres, fosse como atletas, fosse como espectadoras.
Por mais sangue que tenha sido derramado, os atletas jamais abriram mão de alguma ambição pela vitória. Nem mesmo durante as guerras, ou quando a Grécia esteve sob domínio dos macedônios e dos romanos, as competições desportivas deixaram de ser realizadas. Os jogos, contudo, entraram em declínio na segunda metade do século IV.
Durante o domínio do imperador Teodósio, em 380 o cristianismo foi anunciado como religião oficial do Império Romano, fazendo com que, 13 anos depois, todos os centros desportivos e religiosos que abrigavam festas pagãs fossem fechados. Era o fim dos Jogos Olímpicos da Antiguidade, que só viriam a ganhar uma versão moderna cerca de l 500 anos mais tarde.
CRONOLOGIA
  • 2500/2000 a. C. – Primeiras competições olímpicas
  • 580 a.C. – Sólon promulga uma lei em Atenas, dispondo que cada vencedor olímpico recebesse 500 dracmas
  • 520 a. C. – O programa dos Jogos Olímpicos se estabiliza, com sete dias de duração
  • 420 a. C. – Exclusão de Esparta dos Jogos Olímpicos
  • 388 a. C. – Na XCVIII Olimpíada, o primeiro caso de alteração de resultado: o pugilista Eupolos compra três adversários para ganhar o título
  • 313 a. C. e 210 a.C. – Saques contra a cidade de Olímpia
  • 395 – Os godos destroem Olímpia
  • 1896 – O barão de Coubertain recria em Atenas as Olimpíadas 






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