quarta-feira, 7 de outubro de 2015

A dimensão política da arte




A dimensão social da arte

As relações entre a arte e a sociedade são recíprocas e dinâmicas. Tanto o campo social influencia a produção artística (conforme procura explicar a História da Arte, ao reconstruir as circunstâncias em que se concebem as obras, de modo a compreender e a explicar a sua evolução e a sua forma e significado), como a arte condiciona o contexto social.

A repercussão social da arte, resultado do seu processo de circulação no seio da sociedade que chega ao seu destinatário ou público consumidor, permite conhecer o raio de ação do campo artístico sobre o campo social, o efeito (interesse, indignação ou indiferença) que a obra desencadeia no público e o seu consumo (interpretação e contemplação ou utilização da obra).

A interdependência, medida pelas influências e conexões, da arte com o seu meio social sugere-nos o estudo da dimensão social do facto artístico, que se situa num campo vasto, complexo e interdisciplinar. Consequentemente, referir a conexão entre a arte e a sociedade e sugerir uma dimensão social da arte pressupõe encarar a obra como um produto social, por um lado, e como um elemento constitutivo da própria sociedade, por outro lado.


Caravaggio, 'A Morte da Virgem'(1606)
A teoria da arte como imitação apresenta a arte como espelho da realidade. Contrariando esta lógica do reflexo, Bourdieu defende que é o campo artístico que exerce um efeito de reestruturação ou de refracção devido às suas forças e formas específicas. Assim a arte não é um mero reflexo da realidade social.
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A criação artística como expressão social está patente na variedade de estilos, formas, matérias e temas que marcam as épocas das obras de arte. Ao longo da história, a arte tem conseguido expressar a diversidade religiosa: os templos gregos em honra dos deuses, as pirâmides egípcias, as mesquitas árabes, os mosaicos bizantinos ou os vitrais góticos e os capitéis românicos das catedrais ocidentais.

A arte é interpretação da sociedade e tanto pode corroborar como criticar uma determinada situação social ou certos valores de uma época. Esta possibilidade atribui à obra um certo valor social de intervenção. Por exemplo, uma obra ou monumento comemorativo pode representar ou simbolizar tanto um regime democrático (a Estátua da Liberdade, em Nova Iorque) como o absolutismo do poder político (a águia imperial no Bundestag ou Versalles a reforçar a ideia de Estado centralizado de Luís XIV). O valor de propaganda política da obra pode, no entanto, condicionar a ação criadora do artista. O poder está consciente da força persuasiva da arte, da possibilidade de expressar tendências sociais a favor ou contra um ideal político, pelo que em sociedades totalitárias o artista vê a sua produção subordinada à crítica, à condenação e à censura.

O artista tanto pode desenvolver uma obra apologista do regime político como servir-se da arte para condenar uma certa ideologia.

Com frequência, a arte interpreta a sociedade de forma interventiva e crítica. Por exemplo, Guernica, de Pablo Picasso, revelou a solidariedade do artista com os Republicanos despertada pela Guerra Civil de Espanha. O painel foi inspirado no bombardeamento de Guernica, antiga capital dos Bascos. Não representa o próprio acontecimento, mas evoca, mediante as imagens e formas adoptadas por Picasso, a agonia da guerra. A obra, de 1937, constitui uma visão profética de desgraça do bombardeamento de saturação que marcou, depois, a Segunda Guerra Mundial.

A realidade é o que é em si: una, objectiva, concreta. Mas é uma diversidade de coisas ou estados de coisas. Por isso também é diversa, heterogénea. O que designamos vulgarmente por sociedade ou contexto social não é mais do que um conjunto heterogéneo de situações, pessoas, padrões culturais e realidades de ordem diversa (a estrutura social engloba crenças e práticas religiosas, mercados económicos, ações políticas, níveis culturais, pensamentos científicos, ideias sobre arte, etc.). As visões, perspectivas ou modos de interpretar artisticamente a realidade são diversas e criam realidades heterogéneas. Visões subjetivas do mundo codificado social e culturalmente. O artista é o intérprete da colectividade à qual pertence.

Também o termo “arte” pressupõe uma realidade diversa, razão pela qual existem linguagens artísticas diferentes e peculiaridades técnicas e materiais das obras. A diversidade da realidade artística e a peculiaridades das linguagens e técnicas da arte explicam a capacidade de produção e de recepção de influências do meio social. Existem tantos modos de ver como mundos interpretados pela arte, na medida em que proliferam redes ou estruturas onde se produzem e se consomem as obras de arte, pelo que se pode dizer que o campo de possibilidades da arte é virtualmente infinito.

A arte também é transformação ou recriação do real. O mundo real não coincide com o real da arte. A obra de arte revela uma realidade transfigurada. Da conjugação da realidade social com o pensamento e sentimento que movem o artista nasce a obra.

/.../ Além de processos de expressão ou modos de comunicação, as formas artísticas têm a possibilidade de influir nos gostos, ideias, comportamentos ou atitudes de determinados grupos sociais como de suscitar escândalo ou polémica. São inúmeros os factores que condicionam os efeitos sociais da arte. Primeiro, a função da obra de arte e a sua incidência nos padrões culturais da sociedade ou nos modos de pensar de um determinado grupo social.
/.../ Quando exprime o seu gosto, o indivíduo revela a cultura em que foi formado. Em cada época existem factores que determinam a formação de padrões ou critérios de beleza aos quais o indivíduo, inserido num determinado contexto sociocultural, se submete quer para produzir obras de arte, enquanto artista, quer para avaliá-las, enquanto espectador.
 Ao longo da história surgiram diferentes ideais de beleza que se solidificaram no seio social e que os artistas ora imortalizaram com obras de arte ora transformaram com outros estilos, critérios e formas de expressão artística. O gosto ou os cânones dominantes de uma determinada sociedade numa certa época tende a condicionar eventuais novas formas de expressão estética.
Com frequência, líderes de opinião condicionam a receptividade pública de obras por veicularem juízos estéticos e críticos. A moda ou seguidismo do público são proporcionados pela emissão, por parte dos críticos, de juízos estéticos sobre as obras. Outro caso curioso prende-se com a obra de Edouard Manet (1832-1883), pintor francês que hoje é geralmente considerado o percursor da pintura moderna, mas que em vida apenas teve Émile Zola como único crítico que valorizou a sua obra. Independentemente da qualidade artística, a maior parte das obras de Manet rejeitadas no século XIX encontram-se hoje nos museus mais importantes espalhados pelo mundo. As obras são as mesmas. O que mudou foi a apreciação da sua qualidade, os juízos de valor dependentes das ideias, interesses e gostos historicamente variáveis das pessoas que os formulam e que são condicionados pela sociedade e pela cultura de uma determinada época.
A arte pode assumir a condição de expressão tanto de um mundo interior (experiência pessoal, ideais, gostos transparecem na criação do artista) como de um mundo exterior do artista. Apresenta-se ao público, por conseguinte, como uma concepção individual. No entanto, o artista não é imune às influências do meio social em que vive. É um ser histórico, com um determinado contexto sociocultural e com um passado de experiências que se repercutem na obra.
/.../ É na realidade que o artista se inspira (cores, formas, sons, ideias, movimentos, matérias) e impõe a sua arte. O artista vive num mundo social onde se instruiu com hábitos, usos, costumes, modos de ver e interesses; exercitou as suas aptidões; formou os seus padrões culturais; e apurou os seus sentidos para a experiência estética. A interiorização dos padrões vigentes na sociedade de que faz parte o artista tornou-o alguém com capacidades de aplicar esteticamente os elementos sociais que integra.
Paulo Barroso, http://www.aps.pt/cms/docs_prv/docs/DPR460e84135cce8_1.pdf

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A teoria da arte como imitação pode ser politicamente conservadora, mas também pode ser transformadora da sociedade (revolucionária) se procurar mostrar os problemas que se vivem na sociedade...

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