sábado, 5 de dezembro de 2015

Filme 'Equilibrium'


No filme Equilibrium (argumento e realização de Kurt Wimmer. Apesar das dispensáveis e já habituais cenas de pancadaria, o filme trata problemas éticos interessantes e questões filosóficas pertinentes) retrata-se uma hipotética sociedade do futuro em que, depois do fim da 3ª guerra mundial, os homens vivem num país chamado Libria submetidos a um regime totalitário. Depois da guerra que quase aniquilou por completo a espécie humana, os governantes - convencidos dos resultados negativos que derivam do exercício descontrolado de certas emoções e sentimentos dos homens (odiar, cobiçar, desejar etc) – decidem anular a capacidade de sentir (em sentido alargado, que inclui emoções e sentimentos) para evitar o mal e construir uma sociedade estritamente assente na racionalidade, na organização e na contemplação; sociedade essa na qual a guerra, o homicídio, o vício etc, não teriam lugar. Assim, os habitantes de Libria (que se pode traduzir por “balança”, “equilíbrio”, “moderação” etc.) ministram a si próprios, voluntária e regularmente, uma droga que os incapacita de sentir, com o objectivo de anular o mal decorrente do exercício dessa capacidade. O resultado é que - aparentemente - todos os habitantes de Libria se comportam segundo elevados padrões de excelência: física, intelectual e moral. Segue-se que nessa sociedade utópica todos agem bem, todos cumprem bem, todos fazem bem, graças ao uso de uma droga que anula parte da natureza humana (seja lá o que isto for).

Seria de esperar que esta sociedade fosse perfeita, ou lá próximo. Com efeito, os níveis de desenvolvimento intelectual e excelência moral são muito elevados, o que, como por exemplo nos diz Aristóteles na sua obra Ética a Nicómaco, deveria gerar uma vida feliz e um comportamento moral sem mácula. Mas, curiosamente ou talvez não, tal não acontece. O que é mostrado pelo filme é seres privados de uma das suas capacidades mais importantes: a de sentir. Argumenta-se que retirando ao homem essa capacidade ele torna-se num mero autómato, sem outro objectivo que não seja apenas o de prolongar a sua existência individual e a da espécie, o que origina um círculo vicioso e uma vida sem sentido. Por certo (questiona-se numa cena do filme) uma vida assim vivida talvez não mereça ser vivida, quanto mais ser considerada uma vida feliz.

Felizmente, no underground de Libria existem alguns revoltosos indignados com o status-quo que conhecem o real valor da capacidade de sentir, pois deixaram de tomar a droga “milagrosa”. Escusado será dizer governo de Libria exerce uma repressão terrível contra esses rebeldes do sentimento, que se manifesta por via de uma legislação implacável, aplicada por um corpo policial repressivo de elite, os tetragrammatons, (uma combinação de clérigos inquisidores espanhóis do séc. XIV com o Bruce-Lee e o Wyatt Earp). Estes clérigos são altamente treinados para julgar e matar - na hora - os infractores-sensitivos, sem hesitação ou remorsos.

O argumento do filme avança que um dos membros mais influentes dessa elite de assassinos certificados e autorizados pelo governo de Libria deixa acidentalmente de tomar a sua medicação. Isso tem como consequência que esse indivíduo comece repentinamente a experimentar prazeres sensoriais e intelectuais com que nunca tinha tido contacto anteriormente, o que o leva a pensar na estupidez e maldade dos seus actos praticados no passado enquanto ser não-emocional e não-sentimental (actos do tipo de condenar a sua própria mulher à morte por combustão – na fogueira, ou executar o seu melhor "amigo" por estar a ler poesia). O processo de descoberta descrito faz-nos pensar sobre o valor e a necessidade da emoção e do sentimento; e que, muito provavelmente não podemos abdicar dessas nossas características sem abdicar ao mesmo tempo da nossa identidade e humanidade. Aliás, o ponto filosófico fulcral do filme acontece precisamente quando o líder dos rebeldes explica ao mais recente ofensor sensitivo (o herói da história) a necessidade das nossas sensações, emoções e sentimentos estarem "ativados". E quando o herói questiona o líder dos rebeldes sobre o preço a pagar pelos actos moralmente condenáveis (guerra, vício, homicídio etc.) derivados do descontrolo que frequentemente nos acontece por estamos "ativados" para sentir, obtém a resposta que é um preço que temos que pagar de bom-grado, e que a única coisa que podemos fazer é tentar dominar esse "descontrolo emocional". (Claro que tentar imputar a responsabilidade dos actos moralmente condenáveis apenas à emoção e ao sentimento é uma ideia redutora e fraquinha do filme - e kantiana, o mal moral está no coração! - , pois é óbvio que esses actos derivam de outros factores: psicológicos e sociais. Mas o argumento corrige esse erro quando nos mostra que no topo do governo de Libria estão homens que sentem livremente e que agem mais em função do que sentem do que propriamente do que pensam, o que remete o Mal moral para o todo, e não apenas para uma parte, do ser humano).

Concluo então que o filme nos incita a pensar que não podemos ser felizes sem emoções e sentimentos, sem prazer, sem dúvida e sem autonomia (em sentido ético). Mas isto não é nada de inovador, até é bastante trivial; Aristóteles, por exemplo, sabia-o perfeitamente. Mas convém ir repetindo estas trivialidades para que não caiam no esquecimento, não é?

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