domingo, 10 de janeiro de 2016

"O Cidadão Norte-Americano - texto sobre a cultura e a globalização



O cidadão norte-americano

“O cidadão norte-americano acorda numa cama construída segundo um padrão originário do Médio Oriente, mas modificado na Europa do Norte, antes de ser transmitido à América. Na cama  cobre-se com lençóis feitos de algodão, cuja planta se tornou cultivável na Índia; ou de linho ou de lã de carneiro, um e outro  cultivados e domesticados pela primeira vez no Médio Oriente; ou de seda, cujo emprego foi descoberto na China. Todos esses materiais foram fiados e tecidos por processos inventados no Médio Oriente. Ao levantar-se da cama faz uso dos “mocassins” que foram inventados pelos índios das florestas do Leste dos Estados Unidos e entra na casa de banho cujos aparelhos são uma mistura de invenções europeias e norte-americanas, umas e outras recentes. Tira o pijama, que é um vestuário inventado na Índia e lava-se com sabão que foi inventado pelos antigos gauleses, faz a barba que é um rito masoquista que parece provir dos sumérios ou do antigo Egito.
Voltando ao quarto, o cidadão apanha as roupas que estão sobre uma cadeira do tipo europeu meridional e veste-se. As peças do seu vestuário têm a forma das vestes de pele originais dos nómadas das estepes asiáticas; os seus sapatos são feitos de peles curtidas por um processo inventado no antigo Egito e cortadas segundo um padrão proveniente das civilizações clássicas do Mediterrâneo; a tira de pano de cores vivas que amarra ao pescoço é sobrevivência dos xailes usados aos ombros pelos croatas do séc. XVII. Antes de ir tomar o seu ‘breakfast’, ele olha para a rua através da janela feita de vidro inventado no Egito; e, se estiver a chover, calça galochas de borracha descoberta pelos índios da América Central e pega um guarda-chuva inventado no sudoeste da Ásia. O seu chapéu é feito de feltro, material inventado nas estepes asiáticas.
De caminho para o café da esquina para tomar o pequeno almoço, pára para comprar um jornal, pagando-o com moedas, invenção da antiga Líbia. No café, toda uma série de elementos tomados de empréstimo o espera. O prato é feito de uma espécie de cerâmica inventada na China. A faca é de aço, liga feita pela primeira vez na Índia do Sul; o garfo foi inventado na Itália medieval; a colher vem de um original romano. Começa o seu pequeno almoço, com uma laranja vinda do Mediterrâneo Oriental, melão da Pérsia, ou talvez uma fatia de melancia africana. Toma café, planta abissínia, com leite e açúcar. A domesticação do gado bovino e a ideia de aproveitar o seu leite são originárias do Oriente Médio Oriente, ao passo que o açúcar foi feito pela primeira vez na Índia. Depois das frutas e do café vêm os waffles, os quais são bolinhos fabricados segundo uma técnica escandinava, empregando como matéria prima o trigo, que se tornou planta agrícola na Ásia Menor. Como prato adicional talvez coma o ovo de alguma espécie de ave domesticada na Indochina ou delgadas fatias de carne de um animal domesticado na Ásia Oriental, salgada e defumada por um processo desenvolvido no norte da Europa.
Acabando de comer, o nosso amigo recosta-se para fumar, hábito difundido pelos índios americanos e que consome uma planta originária do Brasil; fuma cachimbo, que procede dos índios da Virgínia, ou cigarro, proveniente do México. Se for um grande fumador, pode ser que fume mesmo um charuto, transmitido à América do Norte pelas Antilhas, por intermédio da Espanha. Enquanto fuma, lê notícias do dia, impressas em caracteres inventados pelos antigos semitas, em material inventado na China e por um processo inventado na Alemanha.”
Ralph Linton, O homem: Uma introdução à antropologia. 3ed. , São Paulo, Li vrar ia Mar t ins Editora, 1959. Citado em LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. 16ed. , Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor , 2003, p.106-108

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